Flecha Quebrada

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As Eleições Europeias e a Perda do Meu Direito de Voto

Assembleia da RepúblicaComo já havia dito, não tenho muito tempo para dedicar-me ao blogue e partilhar umas quantas ideias. No entanto, esta não pode esperar porque quero que testemunhem com antecedência o episódio que se está a passar.

Estamos em altura de eleições para o Parlamento Europeu e eu, como muitos milhares de portugueses, vou deslocar-me de férias durante este fim-de-semana para fora da minha cidade, a lindíssima cidade de Lisboa. A altura destas merecidas férias coincide exactamente com o dia das eleições europeias (7 de Junho) e a minha intenção, como bom cidadão português, é a de participar voluntária e genuinamente em todas as eleições realizadas em Portugal.

Agora, o que eu fiz hoje pode surpreender a alguns (a outros não, com certeza) mas decidi ligar para a Comissão Nacional de Eleições para esclarecer uma dúvida:

- Posso votar fora da minha área de residência durante as minhas férias? – A resposta é não.

Não sei se são necessários mais de 45 dias, contudo não me importaria de notificar a CNE da minha deslocação se soubesse antecipadamente desta. Partindo do princípio que esta notificação resolveria o problema.

A minha especialidade não é a área de Direito mas há um artigo que poderá ser a razão deste impedimento. Corrijam-me se estiver equivocado.

Artigo 9.º – Local de inscrição no recenseamento

1 – A circunscrição eleitoral de eleitores detentores de cartão de cidadão é a correspondente à morada a que se refere a alínea b) do n.º 1 do artigo 8.º da Lei n.º 7/2007, de 5 de Fevereiro.

2 – Os eleitores inscritos no recenseamento eleitoral nos locais de funcionamento de entidade recenseadora correspondente à morada indicada no bilhete de identidade mantêm a sua inscrição na mesma circunscrição eleitoral, salvo se, tendo obtido cartão de cidadão, deste constar morada diferente.

(…)

Regime jurídico do recenseamento eleitoral
Lei 13/99, 22 Março

Estou desiludido. Pretendo participar no acto eleitoral e quero que o sistema preveja estas situações excepcionais. Não posso e o sistema não o permite nestas condições.

A pessoa que me atendeu não poderia ouvir o meu aceso protesto pois não tem responsabilidade nenhuma e, para além disso, foi prestável e simpática no esclarecimento. Utilizo então as novas tecnologias e exerço o “meu pequeno voto de protesto” aqui. Note-se que o poderia exercer em qualquer parte do país. Até no meu destino de férias.

Qual é a legitimidade dos partidos para apelar ao voto? Como podem evitar a abstenção em época de férias? Como podem culpar os eleitores de ausência de dever cívico?

Artigo 3.º – Oficiosidade e obrigatoriedade

1 – Todos os eleitores têm o direito a estar inscritos e o dever de verificar a sua inscrição no recenseamento e, em caso de erro ou omissão, requerer a respectiva rectificação.

2 – Todos os cidadãos nacionais, residentes no território nacional, maiores de 17 anos, são oficiosa e automaticamente inscritos na base de dados do recenseamento eleitoral, adiante designada abreviadamente por BDRE, devendo a informação para tal necessária ser obtida com base na plataforma de serviços comuns do cartão de cidadão.

Regime jurídico do recenseamento eleitoral
Lei 13/99, 22 Março

A Base de Dados do Recenseamento Eleitoral estará certamente disponível em formato electrónico. Penso que não será difícil aceder aos dados através da Internet. Não é por impossibilidade tecnológica que não há comunicação entre a “direcção central” e os locais de voto. Agora, compreendo que a legislação nesta matéria possa ser algo complexa, por exemplo, para impedir a dupla votação ou assegurar a segurança do sistema informático. No entanto, isto não é impeditivo de que se avance neste sentido.

Julgo que os partidos e os deputados têm a noção deste sério problema que se coloca. Se não a tiverem, olhem para os resultados, aumentem o volume e oiçam os jornalistas observar mais uma vez: “o número elevado da abstenção poderá estar relacionado com as férias prolongadas dos portugueses…”.  Se há deputados que são indiferentes a este número, façam o favor de estarem calados. São maus deputados e não têm legitimidade nenhuma para apelar ao voto.

Eu sou bom cidadão, mas no domingo, lamentavelmente, não poderei exercer o meu direito de voto.

O número de telefone da CNE é o 213 923 800.


6 Responses to “As Eleições Europeias e a Perda do Meu Direito de Voto”

  1. Anusca says:

    Olá Bruno,

    Parabens por esta tua observação.

    Estou exatamente na mesma circunstância que tu. Adorava poder ir votar, mas como estou de férias, fora da minha área de residância e apesar de já possuir o cartão do cidadão, continuo inviabilizada de poder exercer o meu direito ao voto.

    Compartilho a tua indignação. Bem haja a todos os que se juntarem a nós.

  2. Vasco says:

    Caro Bruno,

    Assim como tu, eu sou mais um exemplo entre vários exemplos de eleitores portugueses que infelizmente não poderão votar neste 7 de junho….
    Depois ainda temos que ouvir dos “entendidos de política” a afirmarem não saberem a razão do frequente aumento da abstenção!!!
    Fica aqui o meu protesto!

  3. Bruno Santos says:

    Cara Anusca e Vasco,

    agradeço os vossos comentários e mensagens de apoio. Não é com surpresa que observo que partilhamos a mesma opinião. É a prova de que há cidadãos impedidos, na prática, de participar num acto democrático.

    Anusca, eu ainda não tenho o cartão do cidadão, mas você já usufrui do tal “milagre tecnológico” da identificação. Qual será a dificuldade em reconhecer o seu cartão? Se fosse um cartão de crédito funcionaria? É revoltante… – (agradeço os seus parabéns).

    Vasco, disse muito bem, somos obrigados a ouvir as “lições de moral” e as “opiniões ocas” de quem se diz entendido em política.

    Faço votos de continuação de boas férias ou de que estas tenham corrido bem,

    Cumprimentos aos dois

  4. ana says:

    Boa Bruno,

    De facto só mesmos os inteligentes sabem o quanto se torna necessário exercer o seu direito ao voto.

    Mesmo que a mudança tecnológica seja grande, o sistema não acompanha ainda o ritmo.

    Falta ainda algum tempo, mas, um dia PORTUGAL chega lá.

    São jovens como vós que alertam as consciências e abrem o caminho à mudança.

    Parabéns.

  5. Bruno Santos says:

    Olá cara Ana,

    deverá haver alguma “inteligência” quando criticam-se os governantes sem participarmos voluntariamente nas respectivas eleições. Penso que as pessoas que fizeram parte deste episódio em que o ” seu voto foi negado” têm agora um motivo duplo para exercer este direito.

    Quanto à mudança, cabe-nos a todos alertar as consciências ;)

    Obrigado pelo seu comentário

  6. Filipe says:

    Precisamente, este ano por causa de férias (Europeias) e ausências do país em trabalho (autarquicas e legislativas) não vou votar uma única vez, é lindo!!

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